Obra parada

O caminho do atraso de Pedras Altas

Para percorrer os 32km, atualmente leva em torno de uma hora e 20 minutos

Jô Folha -

Para chegar em Pedras Altas, os primeiros empecilhos começam logo nos primeiros metros da RS 608. Incontáveis buracos, valetas e sinuosidade dão um aspecto de aventura ao trajeto de pouco mais de 32 quilômetros. O tempo médio da viagem é de uma hora e 20 minutos e as péssimas condições da via atrapalham o escoamento da produção, a busca por serviços de saúde e isolam o pequeno município de 2,2 mil habitantes.

Tradicional pela pecuária, os animais se machucam durante a viagem cheia de percalços e a carne perde valor agregado. Uma indústria de água mineral calcula perdas de 8% a 10% da carga por viagem. Comerciantes se desdobram para convencer caminhoneiros a transportarem suas mercadorias.

A prefeitura precisou alterar o destino final de entrega de produtos nos processos licitatórios, esvaziadas pelo alto custo de logística. As lindas paisagens, o Castelo de Joaquim Francisco de Assis Brasil e hoteis fazenda, interessantes pontos turísticos, sofrem pelas dificuldades de acessar o município, a 150km de Pelotas.

Uma ação civil pública protocolada na Justiça pelo Ministério Público (MP) de Pinheiro Machado contra o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER), em novembro do ano passado, exige a urgente manutenção da rodovia. Entre os motivos da ação está as péssimas condições de trânsito, os transtornos aos habitantes do município e transtornos para a economia local.

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Trecho para ser pavimentado é de 32 quilômetros entre Pinheiro Machado e Pedras Altas. (Foto: Jô Folha - DP)

A ação foi proposta pelo promotor Adoniram Lemos e tramita no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ/RS), que aguarda uma decisão. "A ação visa que o Daer faça a conservação permanente até que não seja pavimentada a rodovia", explica Lemos.

Perdas incalculáveis
O prefeito Bebeto Perdomo (PSB) está na luta pelo acesso asfáltico desde o início do seu primeiro mandato. Foram inúmeras viagens para Porto Alegre, reuniões com deputados, mobilizações que resultaram até num decreto de calamidade pública. "O município adquiriu três veículos novos que já apresentam problemas e já está tudo batendo. Quando temos uma emergência médica, precisa de uma hora e meia pra sair do município, isso é inadmissível", lamenta o gestor.

A obra foi anunciada ainda durante o governo de Antônio Britto, em 1998. De lá pra cá, houve operações que foram paralisadas e a obra está abandonada. Alguns trechos receberam uma base de pedras, já deteriorada. Todas estas intervenções se perdem com a ação do tempo. Nos últimos 20 anos, a população vive a expectativa de um caminho melhor e que possa levar prosperidade ao município. As perdas na arrecadação são incalculáveis, avalia Perdomo.

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Prefeito Bebeto tem esperança em uma decisão judicial para melhorar a via. (Foto: Jô Folha - DP)

O município possui 135 mil hectares, sendo 17 mil com plantações de eucalipto, 33 mil de soja e o restante praticamente todo ocupado com pecuária. "A gente tem produção, tem gente interessada em investir, indústrias que já se interessaram em se instalar no município, mas tudo emperra na estrada de acesso", avalia o prefeito, que vê esgotadas as articulações políticas em favor da rodovia e aguarda ansiosamente uma decisão favorável da justiça na ação do MP.

Dificuldade para o setor produtivo
Uma indústria de água mineral instalada próximo da entrada do município está com 14 empregados. Com capacidade de produzir mais e com interesse dos proprietários de investir no empreendimento, a dificuldade é de escoar a produção. O administrador da empresa, Giovani Friedrich, estima perder de 8% a 10% da carga nos 32 quilômetros até Pinheiro Machado.

A principal dificuldade, conta, é encontrar caminhoneiros interessados em transportar a carga. "A gente se sente duplamente lesado, temos que pagar imposto para circulação do produto ao Estado, que não nos dá condições de circular", opina o empresário. Em uma carga de em torno de 700 vasilhames, a perda é superior a 50 galões.

Fazendo um carregamento para Bagé, o caminhoneiro Fernando Santos costuma transitar pela RS 608. "Toda hora corta pneu por causa das pedras, da problema na suspensão. Só um caminhão velho assim pra aguentar", brincou, na direção de um Mercedes Benz 1313.

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Problemas são constantes na suspensão e nos pneus do caminhão de Fernando Santos. (Foto: Jô Folha - DP)

Representante do Sindicato Rural de Pedras Altas, Carlos Hofmeister Neto investiu na produção de uva. Hoje são cerca de 10 hectares plantados. O produtor tem a intenção de industrializar a produção e construir uma vinícola, porém sente-se impedido pela situação da estrada. Para ele, o problema é começar e não terminar. "Antes a gente convivia com isso, o problema foi nos dar esperança e nos deixar nessa situação", reclama o produtor.

O alto custo de fretes também castigam o comércio do município. Dono de uma ferragem, Ricardo Marins, está sem vidro - um dos produtos vendidos na loja. "Como vão trazer uma carga de lâminas de vidro com estas condições da estrada?" questiona o comerciante. O custo do frete entre Pelotas e Pedras Altas chega a se equiparar ao valor de uma viagem entre Pelotas e Santa Vitória do Palmar e a distância aumenta em mais de 100 quilômetros, além de pedágios.

Sem previsões
Questionados sobre a possibilidade de retomada da obra, a assessoria de imprensa do Daer não deu previsões para o reinício das ações na rodovia. Responsável por fiscalizar a RS 608, o superintendente regional de Pelotas, Jorge Antônio Oleques Junior não foi encontrado pela reportagem.

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